Expoentes Irracionais

 

Amor¹ = solidão

 

Amor²= processo

 

Amor ³= dúvida

 

Amor x n = 0

 

 

 

7 fotogramas

Me apaixonei por você cada segundo.

Tudo insistiu em nunca existir fora de quatro paredes.

Inviável viver algo que nascia desfalecido.

Se tive outros amores em paralelo?

Apenas uma tentativa de perdurar o que era tão e deliciosamente bom.

A cama sempre estará lá.

Afinal,

amigos de cama não se despedem…

apenas tiram férias.

Sintaxe

 

Se eu deixei de te querer, não há sujeito.

É verbo que nasce e se cria só.

Herança

 

Um grande amor para viver é reza comum. Não saúda a devoção, nem abraça o desinteresse. Emerge no instante do desencanto e vicia sem alicerce. Brota e se faz notar pura e simplesmente. Caminha desengonçado, meio que de lado, entre um prato e outro de feijão com arroz. Personifica, ata e mata na manhã seguinte sem deixar bilhete. O devoto herda um cheiro, um gosto, um ranço e um luto persistente.

querO

Quero desejar teu corpo sem culpa. Emaranhar meus dedos em teu cabelo. Sorrir teu sorriso embriagado. Abraçar teu pranto sincero. Quero me enroscar em tuas pernas. Tocar teu ventre.  Embalar teu sono.  Ninar a noite e dividir uma xícara de café pela manhã. Sussurrar mensagens eloqüentes. Me surpreender com tua voz. Perder o rumo. Burlar as horas. Saltar!

 

Quero pensar em ti. Abrir os olhos e te ver entrar.

 

Sinopse de Vida

Há dias em que despertamos saudosos. Outros, convencidos por uma felicidade quase auto-suficiente. Uns em que dançamos, brindamos e bebemos a volúpia da lua. Alguns em que deitamos sobre a grama, admirando o infinito azul de uma manhã de céu de brigadeiro. Ligamos o som bem alto e dançamos com a escova de dentes nas mãos. Ou com o secador de cabelo no meio da sala. Choramos na cama, entre lencinhos e livros. Lambuzamos o controle remoto com os dedos de pipoca amanteigada numa comédia. Ganhamos dinheiro. Pagamos as contas. Dividimos nossas verdades. Multiplicamos amigos. Relaxamos no silêncio do chuveiro. Cozinhamos ao som de jazz. Fazemos dieta. Lotamos o carrinho de compras de guloseimas. Praticamos yoga e meditação. Tocamos guitarra e bateria. Manifestamos a impaciência em nossa buzina veicular. Pedalamos em avenidas largas. Aproveitamos a preguiça no vai-vem da rede. Empilhamos xícaras de café. Separamos o lixo. Descobrimos o cartão de crédito todo fim do mês. Nos produzimos para a night. Ficamos de meia e moleton no sofá. Pintamos quadros. Escalamos paredes. Escrevemos. Rasgamos. Ganhamos. Perdemos. Aprendemos a agregar. Deixamos partir. Acordamos. Dormimos. Acordamos. A vida é deliciosamente complicada para parar.

 

Bailado de silêncio

Em dias frios, a famigerada alcatéia avança sobre o peito pulsante. E impele a bradar e a correr desbaratinadamente.  Envolta na catarse de cobradores e pequenos nós, perco-me em meio às sinuosas copas. Escurece. Nada mais os olhos alcançam. O medo percorre a espinha dorsal. Relutante, ouço sussurros. Talvez instinto ou apenas vozes. Misto de solidão e loucura. Os pés sangram. Dobram-se os joelhos e, enfim, caiu por terra.  Tateando a umidade, entre a folhagem e a relva, clamo pela anunciação. O sol teima adormecido. As pontas errantes dos dedos já calejadas guiam os nervos atrofiados. Respiro, buscando espaço em meus pulmões. A atmosfera rarefeita esmaga o ventre. Insisto, alongando o intervalo paulatinamente. Inspirar, expirar. Suave, suave, recobro a sinestesia corpórea. Recordo notas e aromas. Balbucio antigas melodias. Aos poucos, a angústia se esvai. Dissipa-se a névoa. Não há mais lobos. A alvura granulada toca os calcanhares. Uma leve brisa acaricia a face. Espumas invadem os poros da pele. Regresso uterino. Olhos abertos. Novamente, estou frente ao mar.

 

 

Entre vozes

Saldo de uma noite mal dormida. Muitas aspirinas e copos generosos de água.

As horas passam. Eu, alí, corpo inerte no sofá. Boca seca, coração seco.

Rasgaram minha fantasia. Fui eu! – dizem as vozes.

 

 

 

Voz 01:

 

Nunca sonhei com você. Não gosto de muita coisa e não deixo de gostar. Faço 30 anos. Agora os tenho. Um brinde a Balzac! Enterrou Julie há tempos.

 

 

 

Voz 02:

 

Seu nome não sei. Esqueci aquele sorriso no piano-bar. As bobagens de amar que ficaram por ser ditas, alguém levou.  Tomou de promissória.

 

 

 

Voz 03:

 

Eu, você, nós dois. Sussurros e suor desfalecidos por um passaporte. Acenderam as luzes. Pulei. Fugi. Sem um passado, hoje, almoço e janto lamentos congelados.

 

 

 

Voz 04:

 

Sempre haverá madrugada naquele corpo de mulher: Augusta.

 

 

 

Consciência:

 

E ao chegar você notará que nada fez. Que nada viveu. Que nada…

 

Bailado

 

 

Em tempos de angústia, vivo uma verborragia involuntária. À noite, deito sobre a cama macia, buscando a mente repousar. Insisto, persisto por horas a fio, mas as letrinhas do alfabeto teimam em acasalar. Enamoram-se em segundos e procriam enquanto a madrugada se esvai. Formam palavras, frases e textos diversos e nem sempre conexos. E o burburinho do inquilinato aumenta pressionando o travesseiro até que adormeço.  Cansada, exausta e fatigada, acordo.  Ao amanhecer, as letrinhas emudecem o bailado para a boêmia noturna. Aprecio o silêncio.

 

Canalhas

Somos filhos da ditadura, reféns do agora. Herdeiros de uma sociedade que se decompõe em mimos, drogas, individualismo e vazio. Nossa mente, antes engajada pela unidade, simplesmente vaga, consome e se aliena. Não questionamos. Não lembramos. Não sonhamos. Não sabemos mais conviver. O que é o social? E o bem estar comum? É uma nova tecla? Vivemos um tempo de negação. Nosso Aurélio se perdeu. Nossa língua foi vendida. Desaprendemos honra, valores e ideais. Desapropriamos a família. Cobiçamos, tão somente, o pão e circo de cada dia. Repetimos frases de efeito para parecer Cult. Deixamos a barba crescer por modismo. Não há esquerda, nem direita. Somos disléxicos. Estamos constantemente aflitos, angustiados e doentes de tanta libertinagem. A liberdade ainda é algo a descobrir. Vivemos amedrontados, trancados em nossas casas, carros, muros, corpos e mentes. Somos a paranóia surreal e antropofágica. Prisioneiros e cobradores de nós mesmos. O inimigo, agora, é interno. Chama-se “ego”.

 

 

 

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